segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O medo - The fear



O vento me bate até enrugar a minha Pele. 
A sola dos meus pés grossa, mais dura que as
imposições da vida, não cria feridas  mas me
atrapalha a caminhar, então eu sinto medo.
Muito medo.

O sorriso azedo, rindo da minha tristeza que 
se recusa a ser triste, vaga pelas ruas 
abandonada, entregue ao choro que chora 
sem cessar e, aí, eu tenho medo.

O vento me sopra, me resseca a pele até que
esta, sem ter para onde mais esticar-se, 
se rasga, se quebra como folhas secas.
Cismado, fico com medo.
 
Partida como trapo velho, a minha pele cai
sobre os meus olhos e os impede de verem
com nitidez o que se recusam a ver.
Então percebo o medo fazendo morada em
mim.

O sol me açoita, me bate, me empurra para
a sombra que me rejeita.
Rejeitado pelo descanso, ainda que com 
medo, saio às ruas, vou a luta, a minha luta
contra o medo.  

Sem abrigo, me abrigo em  braços que 
nunca quiseram me abraçar, me deixo ser
Beijado por lábios que jamais ansiaram por
me beijar.
Que medo! 

O frio morde a minha pele enrugada, 
torrada pelo sol, ele me morde até seus 
dentes baterem em meus ossos e estes 
soarem como os sinos soam.
Choro de medo.

A dor dói mas não me incomoda, ela já me
doeu tantas vezes que já não me assusta
como outrora me assustava.
Estou perdendo o meu medo.
 
Agora o medo é do medo que tem medo de
o seu medo não assustar mais o meu medo.
Ultimamente o medo tem ficado tão quieto
que nem percebo quando ele está tentando
me assustar. 

   O Observador - Brasília, setembro de 2013.

                        *

The fear

The wind blows against me until it wrinkles 
my skin. 
The soles of my feet are thick, harder than
life’s hardships; they don’t cause wounds, 
but they hinder my walking, so I feel fear.
A lot of fear.

The bitter smile, laughing at my sadness 
that refuses to be sad, wanders the streets 
abandoned, surrendered to the crying that 
cries without ceasing, and then, I am afraid.

The wind blows on me, dries out my skin 
until it, having nowhere else to stretch, 
tears, breaks like dry leaves.
Lost in thought, I am afraid.
 
Torn like an old rag, my skin falls
over my eyes and prevents them from 
seeing clearly what they refuse to see.
Then I realize fear has taken up residence
within me.

The sun lashes me, beats me, pushes me
into the shadow that rejects me.
Rejected by rest, though 
afraid, I go out into the streets, I go to the 
fight, my fight against fear.  

Homeless, I take shelter in  arms that 
never wanted to embrace me, I let 
myself be kissed by lips that never longed 
to kiss me.
How frightening! 

The cold bites my wrinkled skin, 
sun-scorched, it bites me until its teeth 
strike my bones and they ring like bells.
I cry out in fear.

The pain hurts but doesn’t bother me;
it has hurt me so many times that it no 
longer frightens me as it once did.
I am losing my fear.
 
Now the fear is of the fear that is afraid
that its fear no longer frightens my fear.
Lately, fear has been so quiet
that I don’t even notice when it is trying
to scare me. 

                          *

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