
A terra ressequida abre-se em fendas
rasgadas pelo
calor do sol
inclemente e, instigada pela secura
do ar, clama por vidas.
A
terra rachando em fome, voraz,
engole
os corpos esqueléticos que,
sem vida, lhe caem goela abaixo
e
os regurgita.
A terra seca soluça convulsivamente,
ela regurgita o que a situação lhe
oferece por alimento, mas não
vomita.
A terra, cuidadora como todas as
mulheres, acolhe em seu ventre o
aqueles que lhe são dado para
cuidar, a
cuida.
A terra seca, em sua sabedoria,
guarda as suas crias longe do sol
escaldante.
Guarda todas em seu ventre.
A
terra morre sem derramar uma
única lágrima, ela morre e morta
bebe as lágrimas que derramam
sobre o seu ventre.
O ventre da terra, incha como
uma
ferida, incha como os joelhos
cansados de se ajoelhar, como o
choro que não sabe como calar.
A terra ressequida abre-se em
fendas, fendas onde repousa os
corpos dos que tiveram suas
moradas confiscadas pela seca.
A terra seca acolhe os corpos dos
que se apartaram da vida, e
vive de receber os que perderam
os seus corpos.
A terra, como mãe ama a sua
prole.
Ela acolhe todos que nela buscam
refugio.
A terra seca chora o último choro
dos desesperados.
Ela soluça os soluços dos que já
não podem soluçar.
O Mensageiro - Brasília - novembro de 2012.
*
Dry land
The parched earth splits open into cracks
torn by the heat of the
merciless sun, and, driven by the dryness
of the air, cries out for life.
The earth, cracking with hunger,
voracious, swallows the skeletal bodies
that, lifeless, fall down its throat and
regurgitates them.
The dry earth sobs convulsively;
it regurgitates what the situation
offers it as food, but does not
vomit.
The earth, nurturing like all
women, welcomes into its womb
those entrusted to its
care, and cares for them.
The parched earth, in its wisdom,
keeps its young away from the
scorching sun.
It keeps them all in its womb.
The earth dies without shedding a
single tear; it dies, and in death
drinks the tears that fall
upon its womb.
The earth’s womb swells like a
wound, swells like knees
weary from kneeling, like the
crying that does not know how to
be silenced.
The parched earth splits open into
cracks, cracks where rest the
bodies of those whose
homes were taken by the drought.
The parched earth welcomes the bodies
of those who have departed from life,
and lives by receiving those who have
lost their bodies.
The earth, like a mother, loves her
offspring.
She welcomes all who seek
refuge in her.
The parched earth weeps the final
tears of the desperate.
It sobs the sobs of those who can
no longer sob.
*
Lindo....
ResponderExcluirMeu amor, que poema tocante!
ResponderExcluirFez-me recordar a minha terra tão sofrida - o "sertão cearense"!
Fico impressionada com a sua sensibilidade de falar de questões sociais tão amplas e sutilmente nos convidar à reflexão da nossa responsabilidade sobre o caos total no ambiente planetário.
Beijos mil, poeta lindo!
Oi linda! Obrigado por tuas palavras carinhosas.
ResponderExcluirSeca, secas e mais secas. Todas secas que ha muito deveria não mais acontecer. Miséria e sofrimentos evitaveis mas que, infelizmente, continuar atormentando a vida de milhoes de brasileiros.